Manaus, 15 de Outubro de 2026

Escândalo do Master revela a corrupção ainda mais devastadora

Por: Samuel Hanan
15/10/2026 - 14:00
Samuel Hanan*

O país inteiro está estarrecido com os atos de corrupção envolvendo as mais altas autoridades da República e que vieram à tona com a crise no Banco Master. A população se sente triste, humilhada e envergonhada com tamanha ofensa à moral e à ética. Como dizia o humorista Jô Soares, a corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade tem muito a ver com o Brasil. E como tem!

Segundo estudos da FGV-Ibre, do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação e de várias outras respeitadas instituições nacionais e internacionais, a corrupção no Brasil soma entre 2,5% e 7% do PIB brasileiro. Na estimativa mais conservadora (2,5% do PIB), isso corresponde a cerca de R$ 335 bilhões por ano. Admitindo-se 4% do PIB, seriam R$ 535 bilhões anuais. Em qualquer cenário, no entanto, a corrupção atual é muitas vezes maior que aquela estimada 25 anos atrás.

Em 2002, portanto antes dos governos do PT, o índice de percepção da corrupção (IPC), elaborado pela Transparência Internacional, colocava o Brasil na 45ª posição no ranking mundial, uma situação nada honrosa. Hoje, em 2026, depois de praticamente 18 anos de governo petista (intercalados por 2,5 anos da gestão de Michel Temer e 4 anos de Jair Bolsonaro), o país ocupa a ainda mais vergonhosa 107ª ou 108ª posição nesse ranking. A queda foi brutal e isso implica dizer que, em 2002, existiam 44 países com o setor público mais honesto que o do Brasil e que, atualmente, há 106 ou 107 países na frente do Brasil nesse quesito.

 É uma vergonha nacional, prova da degradação da nação, na qual a ética e a honestidade dos homens públicos foram esquecidas, propiciando o enriquecimento ilícito de corruptores e corruptos, acobertados pela leniência no combate à essa prática nefasta e indesejável.

Para se ter uma ideia do estrago da corrupção na economia do país, os valores da ordem de 2,5% a 4% do PIB equivalem a mais de três vezes o total de investimento anual feito pelo governo federal. Ou, por outra análise, esse valor seria suficiente para pagar um salário-mínimo mensal de R$ 1.621,00 para 20 milhões de famílias que vivem na extrema pobreza ou em situação de pobreza (cerca de 60 milhões de habitantes).

Não é à toa que as pesquisas de opinião – realizadas por diferentes institutos – têm mostrado a repulsa da população a essa situação. De acordo com esses levantamentos, a rejeição à cúpula do Poder Legislativo chega a 72%; à cúpula do Poder Executivo atinge 54%, e à cúpula do Judiciário, a 52%. Ou seja, os mandantes dos três poderes da República são reprovados pela maioria da população brasileira.

As mesmas pesquisas retratam que mais de 75% da rejeição ao atual presidente da República – e candidato à reeleição – se devem à corrupção e à falta de empenho no combate a esse mal, à impunidade, enfim.

O problema é que os gigantescos casos de corrupção se repetem na história. Antes do caso Banco Master, a posição de recordista pertencia ao escândalo revelado em 2015 pela Operação Lava Jato.

O Ministério Público Federal estimou, na época, em R$ 20 bilhões o valor do rombo, montante que atualizado pela variação do IPCA (69,9%) corresponderia hoje a R$ 33,38 bilhões, valor muito maior que toda a verba (R$ 25,29 bilhões) destinada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública na Lei Orçamentária de 2026.

No entanto, nas contas da Polícia Federal o valor foi ainda maior, R$ 42,8 bilhões na época, ou R$ 72,72 bilhões atualizados.

Tudo superado agora pelo escândalo do Banco Master, sob o comando de Daniel Vorcaro, que atingiu R$ 85 bilhões.

 Mário de Andrade (1893–1945), um dos principais intelectuais brasileiros do século XX, escreveu em sua obra Paulicéia Desvairada (1921) que “O passado é lição para se meditar, não para se reproduzir”. Pelo que se vê, lição não aprendida.

Recorramos, portanto, à história. Como resultado da Lava Jato, o atual presidente da República, então sucedido por Dilma Rousseff, foi investigado pela Polícia Federal, denunciado pelo Ministério Público Federal e julgado pelo juiz da 13ª Vara Criminal de Curitiba (PR). Acabou condenado e preso por corrupção e lavagem de dinheiro. Posteriormente, apesar dos recursos impetrados por seus advogados teve a condenação ratificada e a pena ampliada em segunda instância pelo colegiado da 8ª turma do TRF-4 e, mais uma vez, após novos recursos, a 5ª Turma do STJ (terceira instância), em 23/04/2019, manteve a confirmação da condenação por maioria de seus membros (4 x 1).

Somente dois anos depois, o STF (em decisão monocrática) declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e anulou todos os processos. Para dar transparência: nove juízes de três instâncias (inclusive dois colegiados) condenaram, e tudo foi depois anulado pela decisão de um ministro da mais alta corte, monocraticamente.

 De forma muito simples e em linguagem figurada: o STF anulou tudo porque o CEP (Código de Endereçamento Postal) estava errado, e junto com ele R$ 72,72 bilhões atualizados de corruptores e corruptos foram atirados ao esquecimento.
 O condenado passou a ser descondenado e ficha-limpa, sendo novamente eleito presidente da República pelo povo em eleição democrática.

 Posteriormente, em 06/09/2023, outro ministro do STF, também em decisão monocrática, com base na anulação de todos os processos tornou nulos os atos dos acordos de leniência firmados pelos corruptores da Construtora Odebrecht, no valor total de R$ 17,5 bilhões.

Agora, o mesmo STF suspendeu os pagamentos de R$ 18,8 bilhões devidos pela empresa Odebrecht e por um empresário, igualmente em decisão monocrática. A hemorragia não cessou e hoje todos os condenados no âmbito da Lava Jato — mais de 100 corruptos e corruptores — estão soltos, apesar de muitos deles terem confessado em juízo seus crimes de corrupção ativa, passiva, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa.

Agora, o escândalo da vez não é maior apenas em valor, mas em abrangência, pois colocou sob suspeita algumas das mais altas autoridades dos três poderes da República, além do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, algo jamais visto mesmo em uma nação onde a corrupção fincou raízes há muito tempo.

Como é sabido, tudo teve origem com os recursos de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e de outras empresas e fundos de investimento, cuja rede de relacionamentos foi criada e preservada às custas de rapapés milionários, no Brasil e no Exterior.

Para a dissimulação da origem ilícita dos pagamentos, foram firmados diversos contratos, sejam de advocacia, de consultoria financeira e de aconselhamento, todos com cifras milionárias que não escaparão de investigações por lavagem de dinheiro, corrupção, e, especialmente, tráfico de influência.

No meio da trama figura um escritório de advocacia da esposa e filhos de outro ministro do STF, contratado por valor atípico que supera uma centena de milhão para defender os interesses de Vorcaro e de seu banco, já liquidado pelo Banco Central, mesmo depois de receber aportes gigantescos de banco estatal e diversos fundos previdenciários, numa tentativa desesperada de salvar a instituição, que operava títulos podres e cujos credores foram socorridos pelo Fundo Garantidor de Crédito.

A defesa de Vorcaro também era integrada por um escritório de advocacia pertencente a uma ex-diretora de instituto criado e mantido por mais um ministro do STF, banca que recebeu R$ 33 milhões do Master. Trata-se do mesmo escritório que, em anos anteriores, recebeu de um empresário mais de R$ 130 milhões a título de honorários.

Outros dois ministros da Suprema Corte foram citados em razão de contratos de seus familiares que, por meio de estruturas diferentes, receberam dinheiro do sr. Vorcaro e do Banco Master, e com isso chegamos a quatro ministros citados nas investigacões, sendo que um deles supostamente teria relação com um contrato de mais de R$ 400 milhões por meio do escritório de um desembargador aliado desse mesmo ministro.

Se o escândalo respingou no Judiciário, de maneira inédita, também causou estragos no Legislativo, com o presidente do Senado e o presidente da Câmara dos Deputados entre dezenas de parlamentares de ambas as casas que são apontados pela investigação da Polícia Federal por fortes indícios de recebimento de milhões do ex-banqueiro.

Como se não bastasse, Ricardo Lewandowski, ex-presidente do STF e ex-ministro da Justiça no terceiro mandato do governo Lula, além do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega também são citados como beneficiários de honorários de R$ 6,3 milhões e R$ 18 milhões, respectivamente.

O amplo espectro do relacionamento generoso do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, ainda atendeu a interesses até mesmo de um ex-presidente da República.

A generosidade do senhor Vorcaro não ficou restrita aos encorpados contratos de milhões de reais, mas englobou festas e orgias com mulheres estrangeiras em night club no centro de São Paulo, com 120 mulheres suíças e ucranianas para apenas 20 convidados especiais — todos portando crachá de autoridade.

Por fim, mas nem por isso menos grave, também consta do relatório a presença da alta cúpula do Ministério Público e da Polícia Federal, em seleto evento em Londres, regado dos melhores e mais caros uísques e de charutos cubanos, inclusive com a presença do banqueiro Vorcaro, anfitrião que arcou com todas as despesas.

Tudo isso só chegou ao conhecimento público graças ao levantamento do sigilo decretado pelo ministro relator. Com a nação envergonhada e em choque, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, assumiu a condução das sessões no plenário para discutir e deliberar sobre a abertura de investigação sobre ministro daquela corte, diante das citações e diálogos recuperados do celular do preso Daniel Vorcaro e relatados pela PF. Como reação, foi apresentada denúncia contra o ministro relator por parcialidade e interesses político-eleitorais, abrindo uma guerra inédita no STF.

A sessão do plenário da Corte foi pública, durou mais de 10 horas e produziu apenas ofensas e agressões entre vários dos ministros, inclusive dirigidas à presidência. Triste. Com pedido de vista, nada foi decidido. Os suspeitos continuam no exercício suas funções, sem nenhum constrangimento, como se nada tivesse acontecido. Todas as autoridades estão anestesiadas até 4 de outubro.

Há no ar um forte cheiro de arranjo velado pela reeleição. O Brasil e os brasileiros, cidadãos comuns e de bem, que deveriam ser a prioridade número 1, seguem como a última preocupação na fila.

Triste país cuja população – empobrecida e sofrida - assiste, impotente, a erosão da confiança nas instituições. Os escândalos da Lava jato e do Master têm em comum a expressividade dos valores envolvidos, além de personagens repetidos, inclusive o governo e seus partidos. Fica evidente que o cupim da corrupção continua mais ativo do que nunca e parece que ninguém está interessado em aplicar o veneno eficiente para acabar com a praga.
 

*Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002).

Autor dos livros “Brasil, um país à deriva”, “Caminhos para um país sem rumo” e “Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial”. Site: https://samuelhanan.com.br

 

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